Dia número 39: cheguei no Rio e estranhei todos os táxis serem amarelos. Periferia aqui é subúrbio. Recomeço, sem gatas, no Rio.

Dia número 36: aeroporto Santos Dumont fechado devido a questões meteorológicas. Primeiro dia de chuva e névoa, primeiro dia que resolvo voltar a São Paulo de avião.

Conheci muita gente nas filas, até o aeroporto reabrir, às 16h. Depois mais quatro horas de espera até entrar em algum voo. Conheci uma senhora gaúcha, de Juiz de Fora e de mudança pra Mogi das Cruzes. De voz doce e paciente, me contou que era catequista, mas depois virou evangelizadora espírita (ela deve ser boa, porque no geral não gosto de ninguém que fale pros outros de deus - mas dela eu gostei de ouvir).

Cinco aeronaves em pista, a primeira foi pra Brasília, a segunda pra Vitória, as outras três chamavam em ordem os passageiros remanescentes dos voos pra São Paulo. 3901 e 3903 (das 6 da manhã), depois os das 9h, 10h, 11h… (o meu era das 17h15). A cada vaga livre, quem não tivesse bagagem despachada podia tentar entrar. Olhei meu voo: 3945 (tinha todos os números ímpares desde o 3901 antes pra serem chamados).

A segunda aeronave saiu do portão 7 (estávamos no 2). Saímos todos correndo, as malas de rodinha deslizando no chão - parecia corrida maluca e só faltava rasteira. Não entrei. O próximo sairia do portão 2, e o seguinte do 10 (lá embaixo). Voltei. A senhora me olhou - ela era do 3929 - “você vai no mesmo voo que o meu”. Olhei de novo pro bilhete: 3945.

Segui pro portão 10, onde fiz amizade com vários meninos do voo 3935. Criamos um grupo pra exigir que chamassem pela ordem dos voos (o que no fim nem me favorecia). Não entrei (não entramos). Voo 3905, 3911, 3919 e 3923 (vira e mexe chegava alguém perguntando - é no portão 10, lá embaixo!). Pausa. Nova diretriz: sem aeronaves na pista, os voos não tem previsão de horário - e toda vez que ouvir um anúncio da Tam, pode se dirigir ao portão para tentar embarcar.

Voo 3929, portão 8. Vi a senhora passar ao longe. À minha frente, os meninos do 3935, com a certeza de que nesse eles iam. O líder do grupo foi conversar com o funcionário para chamar os voos em ordem (tinha gente do 3953 que ia entrar na frente, não fosse isso).

Entraram todos do 3929 (e a essa hora, ao contrário dos voos da manhã, era muita gente que tinha esperado pra ver). Depois chamaram: 3931. 3931! Passageiros do 3931 SEM BAGAGEM! Os meninos apreensivos. 3933! Alguém lá atrás gritou “3933, aqui!”, abre espaço na multidão pra pessoa passar. Mais dois ou três. Nova chamada. 3935! Entraram todos os meninos, enquanto eu me agarrava à passagem. 3937! Mais alguns. 3939! Mais.

Os passageiros do 395… faziam tumulto.

Repetiu todos os números: 3939, 3937 e todos os anteriores! Mais alguém?

Os passageiros do 50 e poucos gritavam que não. Mais um ou outro se aproximava do portão com as passagens em mãos.

3941!

Olhei a passagem: “o meu é 3945” - então vai lá pra frente que daqui a pouco vai ser o seu, a mulher me disse e me empurrou um pouco mais à frente. Fiquei na cara da porta de vidro. Mas muita gente já tinha entrado. Volta o comissário pro avião pra contagem.

3943! Entraram mais dois. Silêncio, o funcionário de terra olhava para trás.

“Eu sou 3945”. “3945 não.” 3943, alguém? Mais espera.

3945!

Uhuuu! E o funcionário me disse sem nenhuma empolgação: “é, uhu, vai lá.”

Entrei correndo, mas o avião ainda ia ficar parado mais um tempo por lá.

A senhora, já sentada, me olhou em cheio: “eu disse que você vinha no mesmo voo que eu”. Atrás dela, os meninos do 3935 comemoraram que eu entrei.

À direita, a outra senhora que tinha medo (mas não de avião, da vida), me cumprimentou, antes de eu sentar junto a um engenheiro do Recife que mora há 15 anos no Rio e volta todo fim de semana pra lá pra encontrar a mulher e os filhos. Ele parecia o Stepan Nercessian, mas isso eu só reparei quando o avião pousava em São Paulo, e eu descia chorando de lá.

(ah, e eu nem contei de ter chegado em São Paulo e estranhado os táxis serem brancos, e do taxista que falava “Pooooxa”, assim alongado, a cada coisa que me ouvia contar).

São Paulo (terra querida!) retomo no dia 39 dos 95 dias no Rio.

Dia número 35: Levei a viola pro trabalho. Coisas que TODO MUNDO me fala no Rio: “NUNCA venha para o Rio no verão” e “ah, você está na Zona Sul? Então tudo bem.” (o que será que tem na Zona Norte? me pergunto eu…)

Dia número 34: tem martelado na cabeça que eu não voltei mais desde que vim. Peguei o ônibus de volta do trabalho de graça, não sei por que. Vim no telefone com as meninas de casa, na hora que levantei pra passar a catraca o motorista disse: “você pode descer na frente” - mas eu ia até o Flamengo. “Mas eu vou até o Flamengo!” E ele disse: “você é quem sabe. Pode descer pela frente”. Desci pela frente. Não voltei mais desde que eu vim, hoje me pegou.

Dia número 33: o André ia fotografar um casal no Arpoador ao nascer do sol e perguntou se eu não queria ir - e eu não ia perder isso por nada no mundo! Chegamos com céu ainda escuro, luzes da praia e do Vidigal.

Vi um morador de rua na pedra olhando o mar. Pensei que olhar o mar é um bom jeito de manter a sanidade, logo antes de ele começar a falar sozinho.

Balada aqui é “night” (e usam do mesmo jeito que a gente usa balada em São Paulo: pode ser o lugar em si, ou o que você está fazendo num lugar). Aqui mandioquinha chama batata baroa, e abobrinha eu vi como abobrinha paulista.

As pessoas seguem me perguntando se eu vou para o “viradão” (pra Virada Cultural, eu vou).

Dia número 32: comecei a fazer judô na Gurilândia. Fazia tanto tempo que não lembrava mais da sensação de no meio do treino achar que eu vou morrer. Mas isso não tem nada a ver com o Rio…

Dia número 31: fui à praia.

Olhei o mar e pensei em citar Clarice. Mas não vou.

Depois deitei na areia e fiquei vendo o céu azul pra cima, a pedra do Leme num canto de olho. E o barulho do mar. Estávamos lá pela 20.a hora da Tati no Rio. “Isso é muito bom”. A Tati disse: “O quê?”

― Isso.

E ela disse: “é mesmo, é tipo: Encontro”.

(Santa Tereza e o atípico almoço de dia das mães.) Partiram antes das quatro da tarde.

(Tristes dos que ficam!)

Dia número 30: os Barile vieram ao Rio. A Tati disse: “temos 24 horas no Rio, vou fazer um diário! Hora número 1…”

Centro, Palácio Tiradentes e samba na rua do Ouvidor. Meu pai ficou amigo de um vendedor de chapéus Panamá (entregou o cartão e disse “quando vier ao Rio me ligue!” - e não comprou nenhum chapéu).

Confeitaria Colombo e nove espelhos de impressionar.

Dia número 29: trabalho móvel, roteiro em Ipanema. A melhor equipe de roteiristas do mundo (a mais doce, pelo menos). O pôr-do-sol continua fugindo de mim.

Essa parada…

Dia número 28: saí de casa e ouvi a vizinha, que tem uma campainha em forma de leão (de bronze). Voz de senhorinha fumante. Então ela disse: “me conte” (ela disse assim, com “e” no final). “Me conte, você tem o meu cigarro? Então pode mandar!”
Mercado de Laranjeiras (nunca falei de Laranjeiras!), uma cirurgiã que me ensinou tudo sobre cenografia médica. “essa parada do inesperado nas viagens é o melhor de tudo”, ela disse. Essa parada… Fim de noite, a promessa de ir a Paquetá.